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Escreve Flávio Paiva


O PoVO - FLÁVIO PAIVA 04/06/2014

Centenário do Vozão



No primeiro verso do hino do Ceará Sporting Club o compositor e cantor José Jatahy (1910 - 1983) celebra a paixão provocada pelo time alvinegro: “Teu passado é todo coberto de glória”. Ao entoar esse canto épico, a maior torcida do estado e da capital do Ceará exalta os feitos inesquecíveis do clube, com 43 títulos estaduais e um histórico de equipe cearense que mais participou da Série A do Brasileirão e da Copa do Brasil, e a única a disputar copas oficiais do futebol sul-americano, sem contar com o charme de ser também a única do Estado que nunca caiu para a terceira divisão.

A glória no futebol é uma expressão direta da paixão. Por estar associada ao extraordinário, mais do que significar saudade, ela joga a memória para frente, como um testemunho público produtor de impulsos instigadores do querer mais. Está no sentimento de quem torce como parte de uma experiência em processo marcado pelo imprevisível. Diretamente das arquibancadas ou por meio de transmissões televisivas, o torcedor “Camisa 100” combate junto e extravasa um abraço geral dos sentidos em tensões e crenças comuns aos que vibram com o Mais Querido.

As circunstâncias de um jogo, desde o suspense na escalação até o tempo de acréscimo da partida, são permeadas por motivos de aquecimento emocional. O grito catártico sai dos pulmões produzindo convergências de subjetividades em reações imediatas e vigorosas, quer sejam triunfantes ou lamentosas, na dinâmica das possibilidades. A paixão por futebol torna o torcedor ressonante para que, depois do gozo, ele possa relaxar da vitória ou da desolação. Na regra emotiva do jogo encontra-se o movimento das paixões, como fonte de alegria e de tristeza, de conquistas e derrotas.

Toda pessoa vive cotidianamente suas paixões e tem nelas a potência sentimental e emotiva das suas faculdades instintiva, simbólica e imaginativa. Etimologicamente, paixão vem de passividade, o que significa subordinação da razão e da lucidez a algo que nos move sem que saibamos bem explicar o porquê. Esse é um dos motivos saudáveis encontrados no futebol como um lugar para a paixão na complexidade de um mundo que parece perder a força necessária para a admiração.
 
Neste ponto, a descoberta do ídolo chama ao indivíduo uma inversão do seu estado narcísico, fantasiado como parte de si, diante da noção a que se vincula a empatia pelo craque. Tenho frequentado o estádio com os meus filhos em dias de jogos do Ceará e sinto um sabor especial na evocação multitudinária de nomes como o do goleiro Luís Carlos, do zagueiro Sandro, do lateral Vicente, do volante João Marcos, do volante Ricardinho, do armador Nikão e dos atacantes Magno Alves e Bill. Até do técnico Sérgio Soares e do presidente Evandro Leitão. É a sublimação do ser alvinegro, enquanto parte de um grupo social de constituição simbólica, que canta junto, canalizado pela mesma vontade grandiosa e intransferível de curtir a glória do Vozão.

Essa paixão nasce do encontro do torcedor com elementos que o levam a reagir impensadamente enquanto seu coração arde no exercício da liberdade de sentir a força do logo heráldico com cinco estrelas, da figura simpática do mascote Vovô e da magia ancestral da palavra Porangabuçu. Lembrando bem, o jogo com chutes de bola tem vestígios primitivos registrados na China de quatro mil anos atrás, na Grécia de três mil anos passados, na Roma Antiga, no México asteca, no Japão milenar, na Europa renascentista e na ideia genial dos ingleses que há um século e meio estabeleceram as regras, quase todas ainda válidas para os dias atuais.

No pano de fundo da glória e da paixão pelo futebol, temos atributos semióticos e antropológicos que nos mobilizam a torcer. Soma-se a isso o bom momento do clube que será o nosso, quando despertamos para o futebol, sua mística e suas histórias. É importante esse tipo de paixão em nossas vidas, uma paixão que não é amorosa, mas que nos envolve com um feixe de impulsos emotivos, oriundos do desejo de que o nosso time se saia bem em suas partidas e campanhas. Essa paixão aflora sempre como parte indispensável da inspiração de quem desperta para o imponderável mundo futebolístico.

Apaixonado, o torcedor nunca se convence da derrota. Pode até ficar momentaneamente mudo, chateado, mas jamais apático. Se for o caso, xinga o juiz e o responsabiliza pelo seu sofrimento. É que o espírito de quem torce quer prazer e encontra esse prazer no drible, no blefe, no lance surpreendente, no grito de gol. Triste ou alegre o torcedor sabe que a partida tem um tempo limitado, que a magia é cíclica e que pode restabelecer sua esperança quando o time perde, ou colocar em xeque a própria exaltação quando ganha.

A espera entre um jogo e outro costuma abrir espaço para um misto de dramaticidade, analogias e ficção. Faz bem, por ser um acontecimento que se repete em sua imprevisibilidade, e escala o torcedor a tirar o marasmo da rotina. O preto e o branco da camisa alvinegra têm o duplo movimento de ser, a um só tempo, a ausência e a soma de todas as cores. “Ceará, tua glória é lutar”!

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