"O relógio de parede recusa-se a funcionar. Foi minha culpa. Faltou-lhe parede, amassou-se em embrulhos apressados do dia antes de ontem e, mesmo depois de chegar à nova casa, nem parede de verdade lhe dei. Ele perdeu primeiro o movimento dos segundos, depois os minutos e as horas, talvez também por causa da umidade destes dias chuvosos, ou por não aceitar a escada de madeira. Dele só me resta a estampa, que move outros mecanismos invisíveis... Dois dias depois de chegar, perdida entre caixas de papelão e jornais amassados, no meio do cenário da passagem de um furacão, eu tentava entender, afinal, o porquê da necessidade irreversível de morar nesta vila com ruas de terra – a mãe terra, de onde viemos e para onde vamos voltar -. Antes de hoje nada poderia, de forma alguma, fazer sentido, a transformação radical em pleno curso me dizia que todas as certezas precisariam ser remodeladas após a conclusão da mudança. E, no day after, não tenho uma certeza a qual me agarrar. ...