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Mudanças

"Faz algum tempo que os textos surgem dentro de mim como lindas bolhas de sabão que estouram no segundo seguinte, com a sensação de que não vale a pena o esforço de colocá-los no papel. Isto me é estranho. Percorri um caminho longo até aqui, com muitas surpresas que têm me transformado de forma que ainda não compreendo. Meu relacionamento com as palavras não anda lá estas coisas. Perdi a fé. Talvez nelas, talvez em mim, talvez no outro que poderia compreendê-las. Há muitas incertezas. Uma amiga me percebeu repleta de interrogações – que deverão se tornar pontos de exclamação, segundo ela -. Eu só sei que estou prestes a dar uma guinada radical na minha vida, embora o dia tenha começado aparentemente como outro qualquer.
Depois de limpar e preparar as caixas de transportes dos gatos, saí com o carro até o mercado. Chegando lá, senti a necessidade urgente de encontrar uma vaga na sombra. A ideia de entrar, logo mais, em um carro transformado em forno pelo calor do sol me pareceu intolerável. Localizei a vaga na sombra no instante em que era ocupada por um motoqueiro. Abri o vidro do carro e pedi se ele não poderia, por favor, colocar a moto na vaga para motos ao lado, que também tinha uma bela sombra. Ele gentilmente voltou até a moto, destravou-a e me cedeu a vaga. Agradeci e, reconheço, fiquei um pouco surpresa.
Entrei no mercado pensando em comprar uma pequena bandeja de salada de frutas para minha refeição da manhã, quando descobri que, por ser o dia internacional da mulher, estava sendo oferecido um café para os clientes matutinos. Cheguei a tempo de pegar o final, antes de recolherem tudo. Comi uma linda pera e me servi do último copo de suco de goiaba - ultimamente ando um tanto frugívora. Uma senhora ao meu lado tentou servir-se de suco e descobriu que todos haviam terminado. Eu ofereci a ela que dividíssemos o copo do qual havia me servido, ainda intocado, e coloquei metade do conteúdo em outro copo. Ela aceitou e agradeceu. Foi aí que eu comecei a pensar o quanto minhas escolhas e as escolhas alheias estavam construindo uma teia de delicadezas no dia..."
Terminei o café da manhã e fui para a loja de material de construção, ao lado do mercado, a fim de comprar verniz e algumas tintas para as experiências plásticas que pretendo realizar. Quando pensei estar sendo encaminhada ao setor de vernizes, o vendedor me levou até a gerência, onde recebi uma linda rosa vermelha. Sei que é uma prática de marketing comum para o dia - uma vez ao ano -, mas realmente me senti feliz em ganhar a flor. Ali também havia um café da manhã gratuito, o que me fez pensar se mulheres são mais suscetíveis à comida ou se o mercado assume, neste dia, a máscara feminina do cuidar, alimentar, nutrir. Seria ótimo se a sociedade fosse realmente modificada em sua essência pelos valores femininos e não os usasse apenas como uma estratégia passageira de manipulação dos consumidores...
Por fim, começou a tocar no sistema de alto-falantes da loja uma das músicas que mais amo: “Canteiros”. Pareceu-me, de fato, um dia auspicioso para mudanças radicais e escolhas conscientes do que deve continuar inalterado, embora muitas destas coisas ainda permaneçam envoltas na neblina do amanhecer... Saí da loja carregando com cuidado a rosa delicada, já pensando em como fazer para levá-la no transporte de aproximadamente cinco horas até a nova casa.
O pensamento racional, tão prático e masculino, me sugeriu esquecê-la convenientemente e não me incomodar com outra complicada operação em um dia cheio de incertezas e complexidades. Mas, entre todas as escolhas, como a de vender o carro, senti que esta era das mais importantes: levar comigo a flor - que não representava a loja onde me foi dada ou uma delicadeza masculina qualquer, é óbvio. Com ela, eu havia encontrado um perfume especial em mim, que permanecerá mesmo frente a qualquer ventania dos próximos dias. Eu estava pronta para mudança"
Valéria Regina

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